Os verbos e eu
O modo imperativo dos verbos é aquele que exprime ideias de ordem: Faça, seja, não faça, não seja. Imperar, mandar, ordenar. Que coisa mais ditadora com a vida da gente!
Acredito que todo mundo escute ao menos uma dezena de verbos imperativos todos os dias. E desde sempre.
Quando a gente ainda nem entende a força da palavra, por exemplo. A mãe bota o bebê no colo e já lasca um "nana, nenê". Assim, mandando mesmo. Caracoles, e se o cara não tá a fim de fazer naninha? Sabe? Pode estar a fim de ver um desenho na TV, ou de ficar viajando no móbile que fica acima berço.
Mas ok, alguém disse que temos que ter limites, horários, regras.
Daí vamos crescendo e os imperativos imperam de vez: "leve o casaco", "faça a lição", "chegue no horário", "não beba"!
Não sou uma pessoa que sempre fez tudo o que deu na telha, e acredito que um pouco de ordem é fundamental para não despirocar de vez. Mas a gente passa a vida inteira sendo mandado para chegar um dia e ter a liberdade de não fazer o que sempre quisemos! Porque os imperativos não deixam. Ecoam fundo em nossas almas, acorrentadas para sempre às terminações implacáveis desses verbos.
Dá-se o nome de modo às várias formas assumidas pelo verbo na expressão de um fato. Em português, existem três: indicativo (certeza, realidade), subjuntivo (possibilidade) e o imperativo.
Preciso confessar que, hoje, o que me comanda e o que me dá certezas é saber que a vida é feita de dúvidas mil e possibilidades infinitas.
"Reze pelo Haiti"
Caro terremoto,
Você não podia ter escolhido pior hora e lugar, não é?No comecinho do ano, quando a gente ainda está tão
cheio de esperança.
E no Haiti, em um lugar já tão pobre e sofrido.
Para quê, me diga?
Bom, em parte, você conseguiu: estamos devastados.
Diante de tanta ruína, de tantas mortes, de tanta dor.
Mas saiba de uma coisa, senhor terremoto.
Toda a sua fúria, todo o seu poder, não abalou em nada,
nem chegou a trincar, uma obra muito preciosa.
A obra de dona Zilda Arns.
Ao contrário de você, Dona Zilda só fez construir.
Sua Pastoral da Criança está presente hoje em mais
de 20 países, trazendo esperança e futuro a milhares
de crianças.
E quer saber mais, terremoto bobo: se fosse concedido
a cada um o direito de escolher como deixar essa vida,
dona Zilda certamente teria escolhido esse mesmo:
Fazendo o bem a quem mais precisa.
Dedicando sua vida aos mais pobres.
Dedicando sua vida, enfim.
E se você se acha mesmo essa grandeza toda, espere
para ver a onda de solidariedade que vem aí.
De todo o mundo, virá ajuda, dinheiro, comida, remédios.
Prédios inteiros podem ter ruído, mas corações imensos
serão construídos.
Você pode ser grau 7 na escala Richter, mas na escala
Zilda Arns o mundo responderá com mais força.
Espere para ver.
Terremoto covarde.
Terremoto inútil.
Terremoto infeliz.
Que Santa Zilda Arns tenha compaixão de você.
Cássio Zanatta
Diretor de Criação da Africa
Preguiça
Tava hoje no Uol uma chamada dizendo que Nizan "ataca" Salvador. Se quiser, leia aqui.
Eu acho que as pessoas estão ficando muito chatas com essa mania de ser politicamente corretas. Qualquer hora um vai preso por fazer piada de português no elevador. Há que rir mais do mundo e de si mesmo e parar de enxergar todo comentário como ofensa. Principalmente os ditos no Twitter. Que preguiça disso...
PREGUIÇA BAIANA
Nizan Guanaes
Não gosto quando se referem à baianidade com o estereótipo da preguiça. Da falta de sofisticação.
Pierre Verger fotografou a Bahia, e os corpos que ele retratou são peitos, troncos e bundas enrijecidas pela história e pela vida dura.
São homens açoitados pela escravidão. A Bahia é graça, prazer, leveza, mas ela é também luta. O Brasil ficou independente com um grito em 1822. A Bahia teve que lutar, morrer e vencer para expulsar de vez os portugueses em 2 de julho de 1823.
Castro Alves, o maior poeta brasileiro, morreu aos 24 anos, deixando uma obra imensa. Ou seja, trabalhou muito para deixar tanto em um tempo tão curto de sua existência.
Todos os anos o povo da Bahia anda 12 quilômetros com potes de água na cabeça para lavar as escadarias de nosso pai, Oxalá.
No Carnaval baiano, enquanto milhões se divertem, milhares trabalham dia e noite cantando, tocando, vendendo, para que o nosso povo e gente de todo o mundo possam se divertir.
Além disso, quem construiu todas aquelas igrejas, aqueles fortes, monumentos? Nós. Quem colocou cada pedra no Pelourinho? Nós. Quem foi açoitado no tronco que deu ao Pelourinho seu nome? Nós. Quem escreveu músicas, filmes, encenou, pintou, esculpiu parte significativa da produção artística deste país?
Ano após ano, década após década? Nós, os baianos.
Joana Angélica, Maria Quitéria são ruas no Rio de Janeiro, mas na Bahia são sofrimento, luta e heroísmo.
A Bahia é luta, mas ela compreende que a vida não é só isso. E não é. E é por isso que essa tal Baianidade atrai em todas as férias e feriados estressados de todo o mundo.
Na costa da Bahia, o melhor conjunto de resorts do Brasil foi construído para que você possa experimentar o melhor da vida, e a gente trabalha enquanto você descansa.
O reitor Edgard Santos, baiano de boa cepa, fez uma das significativas obras de produção acadêmica e cultural, com contundente dedicação.
Lamento que a Bahia seja tão amada, tão exaltada e tão pouco compreendida.
Todos aqueles coqueiros e boa parte das frutas e especiarias que a Bahia tem não nasceram ali: vieram de outras índias e foram plantados pelas mãos calejadas do povo da Bahia.
Mas o mundo é de percepção. E, lamentavelmente, as novas gerações, por incompetência nossa, herdaram a parte mais vulgar, mais inculta, mais básica e folclórica desta baianidade.
Cabe a nós, os velhos, passarmos pela tradição oral, que é de fato Baianidade.
E lembrar a quem dança na Bahia que, enquanto ele dança, alguém toca. Que enquanto ele reza, alguém constrói igrejas.
Ou seja, na Bahia o trabalho é voltado para o lazer e encantamento do mundo.
E toda vez que você chegar estressado e branco e sair moreno e feliz, chegar descrente e sair otimista e apaixonado, nosso trabalho, nosso papel no mundo estará sendo cumprido.
Baianidade é enfrentar a dura vida de uma maneira que ela pareça menos dura e mais vida.
E para que exerçamos a plena Baianidade, é preciso que entendamos plenamente do que é que somos orgulhosos.
Sou orgulhoso da Bahia mãe de Menininha, Cleusa, Carmem, Stella, do grande Obarain e de Padre Sadock, Padre Luna e Irmã Dulce.
Sou orgulhoso da Bahia de Ruy Barbosa, Glauber, - estilos diversos da mesma paixão baiana que nasceu no 2 de julho.
Sou orgulhoso de Gil, Caetano, Bethânia, Gal, de Jorge, meu amigo amado.
Sou orgulhoso de Caribé, Verger, que não nasceram na Bahia, mas a Bahia nasceu deles.
Sou, enfim, orgulhoso dos filhos da Bahia. E por isso sou tão orgulhoso do Brasil.
O Brasil é o maior filho da Bahia. Ele nasceu lá no dia 22 de Abril de 1500 e é por isso que os brasileiros ficam tão felizes quando vão à Bahia. Porque eles estão, na realidade, visitando os parentes, revendo suas raízes.
Baianidade é enfim o DNA do Brasil, é o genoma do país.
Quando o Brasil vai à Bahia, ele volta para casa.
Para 2010
Mário Quintana
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Quem revisa amigo é
Eu e a Sam (ou Tequila e Mel) nos conhecemos nos nossos primeiros empregos aqui de São Paulo. Sim, porque, além das milhares de coincidências que fazem com que as pessoas nos perguntem todo santo dia se somos irmãs, também somos criaturas vindas do interior e incapazes de pronunciar frases como "carne morta atrás da porta" sem entregar nossas origens.
Tudo começou na Energia, Young & Rubicam, um braço da Y&R que fazia o cocô do cavalo do bandido da publicidade. Passávamos noites revisando preço de azulejo e massa corrida. Mas era muito bom, tenho que confessar. Por vezes eu me peguei pensando que era isso que eu queria fazer da minha vida. E assim começou essa trajetória, há exatos 10 anos. Depois que a Sam saiu da Energia, fui trabalhar na Young & Rubicam mesmo, dentro da criação. Com a ajuda da Rita Corradi, VP da época, comecei a pegar alguns jobs como redatora também. Mas logo pintou uma vaga legal na Lowe, e então foi minha vez de mudar. Quem trabalhou na Lowe sabe: nunca houve uma agência como aquela. A verdadeira casa da mãe Joana era ali. E a gente trabalhava muuuuuito, mas ria muuuuuito também. Virávamos noite liberando anúncios de Renault, mas a fuleiragem era tanta, que acabava virando balada. Fiz ótimos amigos ali, que vou carregar para sempre no coração.
Bom, anos depois, se a Sam, a essa altura do campeonato, voltava para a Young, em São Caetano do Sul, tinha que acontecer comigo também. Fui chamada de volta para a sede de São Paulo, dessa vez comandada por Roberto Justus. Acho que essa Young foi o maior desafio da minha vida. Digo que quando completei 30 anos uma chave virou dentro de mim e tudo mudou. Enquanto me redescobria e alguns setores pessoais ruíam de vez, trabalhava feito louca e chegava chorando em casa. Definitivamente, eu odiei esse tempo. Não foi legal, mas hoje sei que não tinha a ver com o trabalho. Era eu mesmo.
Então mudei tudo. Mudei de casa. Mudei de corpo, mudei de trabalho. Virei redatora em uma agência menor. E por isso mesmo nunca deixei de revisar. Foram dois anos criando. Bem bacana, aprendi muito mesmo. Mas aprendi, inclusive, que redatora eu nasci. E que de vez em quando faz bem seguir seus instintos. Foi quando, numa tarde de maio, recebi duas propostas para voltar para a revisão. Duas. Seguidas. E então aceitei a da Africa, que é onde estou hoje. Ah, e dois meses depois o que aconteceu? Chamei a Sam para trabalhar aqui. Recomeçar qualquer coisa é sempre um ano-novo dentro de cada um de nós.
Bom, tudo isso foi mesmo para explicar como chegamos aqui. É que muita gente não conhece bem o trabalho de revisão em agência de propaganda e por isso vale a pena deixar algumas dicas.
- Se você é daquelas pessoas que leem tudo o que passa pelas mãos, tipo rótulo de shampoo durante o banho, caixa de cereal matinal no café da manhã e texto legal do rodapé da promoção, we want you! Um revisor nato faz coleção de dicionário como a Sam ou de gramática como eu.
- Não importa sua formação acadêmica. Para ser um bom revisor, você precisa mesmo é ter tido uma boa base de educação (acho que isso vale para muitas profissões). Não pode ter faltado na aula de análise sintática de forma alguma, que isso faculdade nenhuma ensina direito (e eu fiz Letras, hein?). Precisa lembrar de quem é o sujeito, o predicado, de como pontuar corretamente e o que é a crase de verdade. Não adianta muito ter feito uma monografia em linguística, porque no dia a dia você vai precisar mesmo é decidir em um espaço muito curto de tempo se usa próclise ou mesóclise e se uma oração é explicativa ou restritiva. Geralmente com gente gritando "cadê o anúncio?" e com o jornal rodando na gráfica.
- Conhecer bem o que é publicidade é pré-requisito. Eu confesso que quando fui parar no meu primeiro emprego me perguntei por dias quem era Young e quem era Rubicam. Hoje reconheço um óculos de aro grosso a metros de distância e sei que promoção agora se chama ativação. Um curso rápido ajuda, mas nada como viver um tempinho dentro de uma agência de verdade (quer aprender pra valer? Comece em agência pequena, onde todo mundo faz tudo).
- Revisor não lê. Conta letrinha.
- Siga o professor Pasquale, o Novo Houaiss e a Academia Brasileira de Letras no Twitter. Se não sabe o que é Twitter, procure outra profissão.
- Corra imediatamente atrás de um curso sobre o novo acordo ortográfico. Tá tarde, mas ainda dá tempo.
- Você pode ser revisor, mas será também publicitário. Desista das regras mais sisudas da Língua Portuguesa, mas insista no que é certo. Lembre-se que a linguagem é coloquial, mas não precisa ser assassinada.
- Não despreze a tecnologia. O revisor do Word é ótimo para pegar erros de digitação. Saiba usar os marcadores dele e do Adobe Professional também. E, de preferência, num Mac!
- Conforme-se em trabalhar em horários estranhos, com gente esquisita e louca. Em pouco tempo você se torna uma delas.
- Manual de Redação e Estilo - O Estado de S.Paulo - leia, decore, filtre, mas use sempre. Enquanto não lançarmos o Manual do Revisor Publicitário, a bíblia é essa.
- Dicionários de Regência, Celso Pedro Luft - só ele sabe por que se chega a um lugar e se assiste aos filmes.
- VOLP - registro oficial das nossas palavras. A versão atualizada já apresenta dia a dia sem hífen e as demais alterações do novo acordo ortográfico.
- Livros do Pasquale. O cara é bacana, pode acreditar. Principalmente porque está atento a muitas das mudanças que a língua sofre na linguagem popular.
- Livros do Sacconi. O cara é mais chatinho, mas a gente precisa ter essa base.
- Dicionários (prefiro o Houaiss) e gramáticas (gosto da do Celso Cunha).
- Cursos da Universidade do Livro.
- Cursos do Senac.
- Cursos da ESPM.
E, para encerrar o post, nada como um exemplo ilustrado de onde o erro engana o olho até dos mais atentos revisores (em tempo: não fomos nós, ufa).
Inferno astral
O mais engraçado de tudo é que teve perrengue pra caramba. Claro, num ano medonho como 2009 se apresentou, não podia ser diferente. E a reclamação é geral. Com a tal da crise econômica, quantas outras crises não se instauraram dentro de nós?
Mas ao mesmo tempo, e o que tem verdadeiramente me deixado feliz, é fato de saber lidar com probleminhas e problemões.
Eu sempre fui uma pessoa exagerada. Chorona. Mas hoje uma ternura imensa me invade e não tenho mais vontade de gritar nem "debuiar" aos prantos quando uma coisa ruim me acontece. Dizem que é a tal maturidade. Hoje eu olho por todos os lados, paro, penso e fico procurando soluções que eu sei que existem. Sim, porque esta é uma verdade: existe sempre um jeito.
E no fim das contas não conheço ninguém que não tenha pessoas maravilhosas à sua volta. Eu tenho.
#poesiaday
CONSOLO NA PRAIA
Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o 'humour'?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.



