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Martha Medeiros na Globo
Quem não leu leia. Quem não viu veja.
Mas ninguém pode passar impune ao texto de Martha Medeiros que a Globo tá exibindo nesse minuto em forma do filme Divã. Muito bom mesmo.
Para lembrar, o melhor pedaço tá aqui.
Feliz ano novo!
Mas ninguém pode passar impune ao texto de Martha Medeiros que a Globo tá exibindo nesse minuto em forma do filme Divã. Muito bom mesmo.
Para lembrar, o melhor pedaço tá aqui.
Feliz ano novo!
Melhor do dia
Eu tenho preguiça da língua portuguesa calcada em regras mais velhas que a minha avó. E tenho mais preguiça ainda de justificar as escolhas das palavras na minha profissão. Resumindo, publicidade é linguagem coloquial sem chutar o balde. Na maioria das vezes a gente tenta colocar a regra clássica, mas tem que ver se ela dialoga com o público. Como o professor Pasquale me disse uma vez: você pode transgredir a norma, desde que seja com propósito.
Não foi o caso de uma peça que liberamos aqui que tinha a palavra melhor antes de um particípio.
Lembrando: melhor pode ser adjetivo ou advérbio:
Adjetivo
1) que, por sua qualidade, caráter, valor, importância, é superior ao que lhe é comparado.
2) que possui o máximo de qualidades necessárias para satisfazer certos critérios de apreciação.
Advérbio
3) mais bem
4) de maneira mais perfeita
5) mais acertadamente
6) com mais exatidão
7) com mais consideração
8) fazendo com mais vista
9) aquilo que é superior
10) aquilo que é adequado
Aí, uma pessoa no Twitter vem falar que não existe empresa "melhor administrada". Pior, a pessoa pede pro dono da agência contratar um revisor.
oO
Segundo o Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, do professor Domingos Paschoal Cegalla, à página 256, “antes de particípio, pode se empregar mais bem ou melhor, indiferentemente”:
Ele está mais bem informado / Ele está melhor informado
Eram casas mais bem construídas / Eram casas melhor construídas
A forma clássica, original, é a não contraída: o time mais bem colocado, as questões mais bem aceitas, a frase mais bem elaborada, os políticos mais bem instruídos. No entanto, pelo fato de mais bem ser sintetizado para melhor, a expressão se transformou com o tempo, e hoje se admite o uso de "melhor" em construções como estas:
O time que for melhor colocado terá privilégios.
Parece que agora os papéis estão melhor distribuídos em termos sociais.
Quando a pessoa tuitou sua mensagem, poderia estar com a melhor das intenções. Ou mais bem intencionada. Ou melhor intencionada, que o texto é meu e eu coloco como quiser. O fato é que não se chama de erro de português algo que gramáticos de peso já aceitam. A reforma ortográfica está aí para provar que os tempos são outros, minha gente!
Não foi o caso de uma peça que liberamos aqui que tinha a palavra melhor antes de um particípio.
Lembrando: melhor pode ser adjetivo ou advérbio:
Adjetivo
1) que, por sua qualidade, caráter, valor, importância, é superior ao que lhe é comparado.
2) que possui o máximo de qualidades necessárias para satisfazer certos critérios de apreciação.
Advérbio
3) mais bem
4) de maneira mais perfeita
5) mais acertadamente
6) com mais exatidão
7) com mais consideração
8) fazendo com mais vista
9) aquilo que é superior
10) aquilo que é adequado
Aí, uma pessoa no Twitter vem falar que não existe empresa "melhor administrada". Pior, a pessoa pede pro dono da agência contratar um revisor.
oO
Segundo o Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, do professor Domingos Paschoal Cegalla, à página 256, “antes de particípio, pode se empregar mais bem ou melhor, indiferentemente”:
Ele está mais bem informado / Ele está melhor informado
Eram casas mais bem construídas / Eram casas melhor construídas
A forma clássica, original, é a não contraída: o time mais bem colocado, as questões mais bem aceitas, a frase mais bem elaborada, os políticos mais bem instruídos. No entanto, pelo fato de mais bem ser sintetizado para melhor, a expressão se transformou com o tempo, e hoje se admite o uso de "melhor" em construções como estas:
O time que for melhor colocado terá privilégios.
Parece que agora os papéis estão melhor distribuídos em termos sociais.
Quando a pessoa tuitou sua mensagem, poderia estar com a melhor das intenções. Ou mais bem intencionada. Ou melhor intencionada, que o texto é meu e eu coloco como quiser. O fato é que não se chama de erro de português algo que gramáticos de peso já aceitam. A reforma ortográfica está aí para provar que os tempos são outros, minha gente!
Os verbos e eu
Cansei dos verbos imperativos. É sério.
O modo imperativo dos verbos é aquele que exprime ideias de ordem: Faça, seja, não faça, não seja. Imperar, mandar, ordenar. Que coisa mais ditadora com a vida da gente!
Acredito que todo mundo escute ao menos uma dezena de verbos imperativos todos os dias. E desde sempre.
Quando a gente ainda nem entende a força da palavra, por exemplo. A mãe bota o bebê no colo e já lasca um "nana, nenê". Assim, mandando mesmo. Caracoles, e se o cara não tá a fim de fazer naninha? Sabe? Pode estar a fim de ver um desenho na TV, ou de ficar viajando no móbile que fica acima berço.
Mas ok, alguém disse que temos que ter limites, horários, regras.
Daí vamos crescendo e os imperativos imperam de vez: "leve o casaco", "faça a lição", "chegue no horário", "não beba"!
Não sou uma pessoa que sempre fez tudo o que deu na telha, e acredito que um pouco de ordem é fundamental para não despirocar de vez. Mas a gente passa a vida inteira sendo mandado para chegar um dia e ter a liberdade de não fazer o que sempre quisemos! Porque os imperativos não deixam. Ecoam fundo em nossas almas, acorrentadas para sempre às terminações implacáveis desses verbos.
Dá-se o nome de modo às várias formas assumidas pelo verbo na expressão de um fato. Em português, existem três: indicativo (certeza, realidade), subjuntivo (possibilidade) e o imperativo.
Preciso confessar que, hoje, o que me comanda e o que me dá certezas é saber que a vida é feita de dúvidas mil e possibilidades infinitas.
O modo imperativo dos verbos é aquele que exprime ideias de ordem: Faça, seja, não faça, não seja. Imperar, mandar, ordenar. Que coisa mais ditadora com a vida da gente!
Acredito que todo mundo escute ao menos uma dezena de verbos imperativos todos os dias. E desde sempre.
Quando a gente ainda nem entende a força da palavra, por exemplo. A mãe bota o bebê no colo e já lasca um "nana, nenê". Assim, mandando mesmo. Caracoles, e se o cara não tá a fim de fazer naninha? Sabe? Pode estar a fim de ver um desenho na TV, ou de ficar viajando no móbile que fica acima berço.
Mas ok, alguém disse que temos que ter limites, horários, regras.
Daí vamos crescendo e os imperativos imperam de vez: "leve o casaco", "faça a lição", "chegue no horário", "não beba"!
Não sou uma pessoa que sempre fez tudo o que deu na telha, e acredito que um pouco de ordem é fundamental para não despirocar de vez. Mas a gente passa a vida inteira sendo mandado para chegar um dia e ter a liberdade de não fazer o que sempre quisemos! Porque os imperativos não deixam. Ecoam fundo em nossas almas, acorrentadas para sempre às terminações implacáveis desses verbos.
Dá-se o nome de modo às várias formas assumidas pelo verbo na expressão de um fato. Em português, existem três: indicativo (certeza, realidade), subjuntivo (possibilidade) e o imperativo.
Preciso confessar que, hoje, o que me comanda e o que me dá certezas é saber que a vida é feita de dúvidas mil e possibilidades infinitas.
Preguiça
Eu preciso falar que estou gostando muito de trabalhar na agência do Nizan. E quero dizer isso porque talvez eu não tenha mais o distanciamento necessário para poder discutir coisas sobre ele ou sobre as agências do grupo, que dizem por aí. Bom, mas também não sei se o faria, porque não faz muito meu tipo ser crítica, ainda mais de propaganda.
Tava hoje no Uol uma chamada dizendo que Nizan "ataca" Salvador. Se quiser, leia aqui.
Eu acho que as pessoas estão ficando muito chatas com essa mania de ser politicamente corretas. Qualquer hora um vai preso por fazer piada de português no elevador. Há que rir mais do mundo e de si mesmo e parar de enxergar todo comentário como ofensa. Principalmente os ditos no Twitter. Que preguiça disso...
PREGUIÇA BAIANA
Nizan Guanaes
Não gosto quando se referem à baianidade com o estereótipo da preguiça. Da falta de sofisticação.
Pierre Verger fotografou a Bahia, e os corpos que ele retratou são peitos, troncos e bundas enrijecidas pela história e pela vida dura.
São homens açoitados pela escravidão. A Bahia é graça, prazer, leveza, mas ela é também luta. O Brasil ficou independente com um grito em 1822. A Bahia teve que lutar, morrer e vencer para expulsar de vez os portugueses em 2 de julho de 1823.
Castro Alves, o maior poeta brasileiro, morreu aos 24 anos, deixando uma obra imensa. Ou seja, trabalhou muito para deixar tanto em um tempo tão curto de sua existência.
Todos os anos o povo da Bahia anda 12 quilômetros com potes de água na cabeça para lavar as escadarias de nosso pai, Oxalá.
No Carnaval baiano, enquanto milhões se divertem, milhares trabalham dia e noite cantando, tocando, vendendo, para que o nosso povo e gente de todo o mundo possam se divertir.
Além disso, quem construiu todas aquelas igrejas, aqueles fortes, monumentos? Nós. Quem colocou cada pedra no Pelourinho? Nós. Quem foi açoitado no tronco que deu ao Pelourinho seu nome? Nós. Quem escreveu músicas, filmes, encenou, pintou, esculpiu parte significativa da produção artística deste país?
Ano após ano, década após década? Nós, os baianos.
Joana Angélica, Maria Quitéria são ruas no Rio de Janeiro, mas na Bahia são sofrimento, luta e heroísmo.
A Bahia é luta, mas ela compreende que a vida não é só isso. E não é. E é por isso que essa tal Baianidade atrai em todas as férias e feriados estressados de todo o mundo.
Na costa da Bahia, o melhor conjunto de resorts do Brasil foi construído para que você possa experimentar o melhor da vida, e a gente trabalha enquanto você descansa.
O reitor Edgard Santos, baiano de boa cepa, fez uma das significativas obras de produção acadêmica e cultural, com contundente dedicação.
Lamento que a Bahia seja tão amada, tão exaltada e tão pouco compreendida.
Todos aqueles coqueiros e boa parte das frutas e especiarias que a Bahia tem não nasceram ali: vieram de outras índias e foram plantados pelas mãos calejadas do povo da Bahia.
Mas o mundo é de percepção. E, lamentavelmente, as novas gerações, por incompetência nossa, herdaram a parte mais vulgar, mais inculta, mais básica e folclórica desta baianidade.
Cabe a nós, os velhos, passarmos pela tradição oral, que é de fato Baianidade.
E lembrar a quem dança na Bahia que, enquanto ele dança, alguém toca. Que enquanto ele reza, alguém constrói igrejas.
Ou seja, na Bahia o trabalho é voltado para o lazer e encantamento do mundo.
E toda vez que você chegar estressado e branco e sair moreno e feliz, chegar descrente e sair otimista e apaixonado, nosso trabalho, nosso papel no mundo estará sendo cumprido.
Baianidade é enfrentar a dura vida de uma maneira que ela pareça menos dura e mais vida.
E para que exerçamos a plena Baianidade, é preciso que entendamos plenamente do que é que somos orgulhosos.
Sou orgulhoso da Bahia mãe de Menininha, Cleusa, Carmem, Stella, do grande Obarain e de Padre Sadock, Padre Luna e Irmã Dulce.
Sou orgulhoso da Bahia de Ruy Barbosa, Glauber, - estilos diversos da mesma paixão baiana que nasceu no 2 de julho.
Sou orgulhoso de Gil, Caetano, Bethânia, Gal, de Jorge, meu amigo amado.
Sou orgulhoso de Caribé, Verger, que não nasceram na Bahia, mas a Bahia nasceu deles.
Sou, enfim, orgulhoso dos filhos da Bahia. E por isso sou tão orgulhoso do Brasil.
O Brasil é o maior filho da Bahia. Ele nasceu lá no dia 22 de Abril de 1500 e é por isso que os brasileiros ficam tão felizes quando vão à Bahia. Porque eles estão, na realidade, visitando os parentes, revendo suas raízes.
Baianidade é enfim o DNA do Brasil, é o genoma do país.
Quando o Brasil vai à Bahia, ele volta para casa.
Tava hoje no Uol uma chamada dizendo que Nizan "ataca" Salvador. Se quiser, leia aqui.
Eu acho que as pessoas estão ficando muito chatas com essa mania de ser politicamente corretas. Qualquer hora um vai preso por fazer piada de português no elevador. Há que rir mais do mundo e de si mesmo e parar de enxergar todo comentário como ofensa. Principalmente os ditos no Twitter. Que preguiça disso...
PREGUIÇA BAIANA
Nizan Guanaes
Não gosto quando se referem à baianidade com o estereótipo da preguiça. Da falta de sofisticação.
Pierre Verger fotografou a Bahia, e os corpos que ele retratou são peitos, troncos e bundas enrijecidas pela história e pela vida dura.
São homens açoitados pela escravidão. A Bahia é graça, prazer, leveza, mas ela é também luta. O Brasil ficou independente com um grito em 1822. A Bahia teve que lutar, morrer e vencer para expulsar de vez os portugueses em 2 de julho de 1823.
Castro Alves, o maior poeta brasileiro, morreu aos 24 anos, deixando uma obra imensa. Ou seja, trabalhou muito para deixar tanto em um tempo tão curto de sua existência.
Todos os anos o povo da Bahia anda 12 quilômetros com potes de água na cabeça para lavar as escadarias de nosso pai, Oxalá.
No Carnaval baiano, enquanto milhões se divertem, milhares trabalham dia e noite cantando, tocando, vendendo, para que o nosso povo e gente de todo o mundo possam se divertir.
Além disso, quem construiu todas aquelas igrejas, aqueles fortes, monumentos? Nós. Quem colocou cada pedra no Pelourinho? Nós. Quem foi açoitado no tronco que deu ao Pelourinho seu nome? Nós. Quem escreveu músicas, filmes, encenou, pintou, esculpiu parte significativa da produção artística deste país?
Ano após ano, década após década? Nós, os baianos.
Joana Angélica, Maria Quitéria são ruas no Rio de Janeiro, mas na Bahia são sofrimento, luta e heroísmo.
A Bahia é luta, mas ela compreende que a vida não é só isso. E não é. E é por isso que essa tal Baianidade atrai em todas as férias e feriados estressados de todo o mundo.
Na costa da Bahia, o melhor conjunto de resorts do Brasil foi construído para que você possa experimentar o melhor da vida, e a gente trabalha enquanto você descansa.
O reitor Edgard Santos, baiano de boa cepa, fez uma das significativas obras de produção acadêmica e cultural, com contundente dedicação.
Lamento que a Bahia seja tão amada, tão exaltada e tão pouco compreendida.
Todos aqueles coqueiros e boa parte das frutas e especiarias que a Bahia tem não nasceram ali: vieram de outras índias e foram plantados pelas mãos calejadas do povo da Bahia.
Mas o mundo é de percepção. E, lamentavelmente, as novas gerações, por incompetência nossa, herdaram a parte mais vulgar, mais inculta, mais básica e folclórica desta baianidade.
Cabe a nós, os velhos, passarmos pela tradição oral, que é de fato Baianidade.
E lembrar a quem dança na Bahia que, enquanto ele dança, alguém toca. Que enquanto ele reza, alguém constrói igrejas.
Ou seja, na Bahia o trabalho é voltado para o lazer e encantamento do mundo.
E toda vez que você chegar estressado e branco e sair moreno e feliz, chegar descrente e sair otimista e apaixonado, nosso trabalho, nosso papel no mundo estará sendo cumprido.
Baianidade é enfrentar a dura vida de uma maneira que ela pareça menos dura e mais vida.
E para que exerçamos a plena Baianidade, é preciso que entendamos plenamente do que é que somos orgulhosos.
Sou orgulhoso da Bahia mãe de Menininha, Cleusa, Carmem, Stella, do grande Obarain e de Padre Sadock, Padre Luna e Irmã Dulce.
Sou orgulhoso da Bahia de Ruy Barbosa, Glauber, - estilos diversos da mesma paixão baiana que nasceu no 2 de julho.
Sou orgulhoso de Gil, Caetano, Bethânia, Gal, de Jorge, meu amigo amado.
Sou orgulhoso de Caribé, Verger, que não nasceram na Bahia, mas a Bahia nasceu deles.
Sou, enfim, orgulhoso dos filhos da Bahia. E por isso sou tão orgulhoso do Brasil.
O Brasil é o maior filho da Bahia. Ele nasceu lá no dia 22 de Abril de 1500 e é por isso que os brasileiros ficam tão felizes quando vão à Bahia. Porque eles estão, na realidade, visitando os parentes, revendo suas raízes.
Baianidade é enfim o DNA do Brasil, é o genoma do país.
Quando o Brasil vai à Bahia, ele volta para casa.
Quem revisa amigo é
Não sei se todo mundo que chega aqui ao Diário sabe que ele é escrito por duas amigas que, depois disso, são revisoras de texto em agência de propaganda.
Eu e a Sam (ou Tequila e Mel) nos conhecemos nos nossos primeiros empregos aqui de São Paulo. Sim, porque, além das milhares de coincidências que fazem com que as pessoas nos perguntem todo santo dia se somos irmãs, também somos criaturas vindas do interior e incapazes de pronunciar frases como "carne morta atrás da porta" sem entregar nossas origens.
Tudo começou na Energia, Young & Rubicam, um braço da Y&R que fazia o cocô do cavalo do bandido da publicidade. Passávamos noites revisando preço de azulejo e massa corrida. Mas era muito bom, tenho que confessar. Por vezes eu me peguei pensando que era isso que eu queria fazer da minha vida. E assim começou essa trajetória, há exatos 10 anos. Depois que a Sam saiu da Energia, fui trabalhar na Young & Rubicam mesmo, dentro da criação. Com a ajuda da Rita Corradi, VP da época, comecei a pegar alguns jobs como redatora também. Mas logo pintou uma vaga legal na Lowe, e então foi minha vez de mudar. Quem trabalhou na Lowe sabe: nunca houve uma agência como aquela. A verdadeira casa da mãe Joana era ali. E a gente trabalhava muuuuuito, mas ria muuuuuito também. Virávamos noite liberando anúncios de Renault, mas a fuleiragem era tanta, que acabava virando balada. Fiz ótimos amigos ali, que vou carregar para sempre no coração.
Bom, anos depois, se a Sam, a essa altura do campeonato, voltava para a Young, em São Caetano do Sul, tinha que acontecer comigo também. Fui chamada de volta para a sede de São Paulo, dessa vez comandada por Roberto Justus. Acho que essa Young foi o maior desafio da minha vida. Digo que quando completei 30 anos uma chave virou dentro de mim e tudo mudou. Enquanto me redescobria e alguns setores pessoais ruíam de vez, trabalhava feito louca e chegava chorando em casa. Definitivamente, eu odiei esse tempo. Não foi legal, mas hoje sei que não tinha a ver com o trabalho. Era eu mesmo.
Então mudei tudo. Mudei de casa. Mudei de corpo, mudei de trabalho. Virei redatora em uma agência menor. E por isso mesmo nunca deixei de revisar. Foram dois anos criando. Bem bacana, aprendi muito mesmo. Mas aprendi, inclusive, que redatora eu nasci. E que de vez em quando faz bem seguir seus instintos. Foi quando, numa tarde de maio, recebi duas propostas para voltar para a revisão. Duas. Seguidas. E então aceitei a da Africa, que é onde estou hoje. Ah, e dois meses depois o que aconteceu? Chamei a Sam para trabalhar aqui. Recomeçar qualquer coisa é sempre um ano-novo dentro de cada um de nós.
Bom, tudo isso foi mesmo para explicar como chegamos aqui. É que muita gente não conhece bem o trabalho de revisão em agência de propaganda e por isso vale a pena deixar algumas dicas.
E, para encerrar o post, nada como um exemplo ilustrado de onde o erro engana o olho até dos mais atentos revisores (em tempo: não fomos nós, ufa).
Eu e a Sam (ou Tequila e Mel) nos conhecemos nos nossos primeiros empregos aqui de São Paulo. Sim, porque, além das milhares de coincidências que fazem com que as pessoas nos perguntem todo santo dia se somos irmãs, também somos criaturas vindas do interior e incapazes de pronunciar frases como "carne morta atrás da porta" sem entregar nossas origens.
Tudo começou na Energia, Young & Rubicam, um braço da Y&R que fazia o cocô do cavalo do bandido da publicidade. Passávamos noites revisando preço de azulejo e massa corrida. Mas era muito bom, tenho que confessar. Por vezes eu me peguei pensando que era isso que eu queria fazer da minha vida. E assim começou essa trajetória, há exatos 10 anos. Depois que a Sam saiu da Energia, fui trabalhar na Young & Rubicam mesmo, dentro da criação. Com a ajuda da Rita Corradi, VP da época, comecei a pegar alguns jobs como redatora também. Mas logo pintou uma vaga legal na Lowe, e então foi minha vez de mudar. Quem trabalhou na Lowe sabe: nunca houve uma agência como aquela. A verdadeira casa da mãe Joana era ali. E a gente trabalhava muuuuuito, mas ria muuuuuito também. Virávamos noite liberando anúncios de Renault, mas a fuleiragem era tanta, que acabava virando balada. Fiz ótimos amigos ali, que vou carregar para sempre no coração.
Bom, anos depois, se a Sam, a essa altura do campeonato, voltava para a Young, em São Caetano do Sul, tinha que acontecer comigo também. Fui chamada de volta para a sede de São Paulo, dessa vez comandada por Roberto Justus. Acho que essa Young foi o maior desafio da minha vida. Digo que quando completei 30 anos uma chave virou dentro de mim e tudo mudou. Enquanto me redescobria e alguns setores pessoais ruíam de vez, trabalhava feito louca e chegava chorando em casa. Definitivamente, eu odiei esse tempo. Não foi legal, mas hoje sei que não tinha a ver com o trabalho. Era eu mesmo.
Então mudei tudo. Mudei de casa. Mudei de corpo, mudei de trabalho. Virei redatora em uma agência menor. E por isso mesmo nunca deixei de revisar. Foram dois anos criando. Bem bacana, aprendi muito mesmo. Mas aprendi, inclusive, que redatora eu nasci. E que de vez em quando faz bem seguir seus instintos. Foi quando, numa tarde de maio, recebi duas propostas para voltar para a revisão. Duas. Seguidas. E então aceitei a da Africa, que é onde estou hoje. Ah, e dois meses depois o que aconteceu? Chamei a Sam para trabalhar aqui. Recomeçar qualquer coisa é sempre um ano-novo dentro de cada um de nós.
Bom, tudo isso foi mesmo para explicar como chegamos aqui. É que muita gente não conhece bem o trabalho de revisão em agência de propaganda e por isso vale a pena deixar algumas dicas.
- Se você é daquelas pessoas que leem tudo o que passa pelas mãos, tipo rótulo de shampoo durante o banho, caixa de cereal matinal no café da manhã e texto legal do rodapé da promoção, we want you! Um revisor nato faz coleção de dicionário como a Sam ou de gramática como eu.
- Não importa sua formação acadêmica. Para ser um bom revisor, você precisa mesmo é ter tido uma boa base de educação (acho que isso vale para muitas profissões). Não pode ter faltado na aula de análise sintática de forma alguma, que isso faculdade nenhuma ensina direito (e eu fiz Letras, hein?). Precisa lembrar de quem é o sujeito, o predicado, de como pontuar corretamente e o que é a crase de verdade. Não adianta muito ter feito uma monografia em linguística, porque no dia a dia você vai precisar mesmo é decidir em um espaço muito curto de tempo se usa próclise ou mesóclise e se uma oração é explicativa ou restritiva. Geralmente com gente gritando "cadê o anúncio?" e com o jornal rodando na gráfica.
- Conhecer bem o que é publicidade é pré-requisito. Eu confesso que quando fui parar no meu primeiro emprego me perguntei por dias quem era Young e quem era Rubicam. Hoje reconheço um óculos de aro grosso a metros de distância e sei que promoção agora se chama ativação. Um curso rápido ajuda, mas nada como viver um tempinho dentro de uma agência de verdade (quer aprender pra valer? Comece em agência pequena, onde todo mundo faz tudo).
- Revisor não lê. Conta letrinha.
- Siga o professor Pasquale, o Novo Houaiss e a Academia Brasileira de Letras no Twitter. Se não sabe o que é Twitter, procure outra profissão.
- Corra imediatamente atrás de um curso sobre o novo acordo ortográfico. Tá tarde, mas ainda dá tempo.
- Você pode ser revisor, mas será também publicitário. Desista das regras mais sisudas da Língua Portuguesa, mas insista no que é certo. Lembre-se que a linguagem é coloquial, mas não precisa ser assassinada.
- Não despreze a tecnologia. O revisor do Word é ótimo para pegar erros de digitação. Saiba usar os marcadores dele e do Adobe Professional também. E, de preferência, num Mac!
- Conforme-se em trabalhar em horários estranhos, com gente esquisita e louca. Em pouco tempo você se torna uma delas.
- Manual de Redação e Estilo - O Estado de S.Paulo - leia, decore, filtre, mas use sempre. Enquanto não lançarmos o Manual do Revisor Publicitário, a bíblia é essa.
- Dicionários de Regência, Celso Pedro Luft - só ele sabe por que se chega a um lugar e se assiste aos filmes.
- VOLP - registro oficial das nossas palavras. A versão atualizada já apresenta dia a dia sem hífen e as demais alterações do novo acordo ortográfico.
- Livros do Pasquale. O cara é bacana, pode acreditar. Principalmente porque está atento a muitas das mudanças que a língua sofre na linguagem popular.
- Livros do Sacconi. O cara é mais chatinho, mas a gente precisa ter essa base.
- Dicionários (prefiro o Houaiss) e gramáticas (gosto da do Celso Cunha).
- Cursos da Universidade do Livro.
- Cursos do Senac.
- Cursos da ESPM.
E, para encerrar o post, nada como um exemplo ilustrado de onde o erro engana o olho até dos mais atentos revisores (em tempo: não fomos nós, ufa).
#poesiaday
CONSOLO NA PRAIA
Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o 'humour'?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.
Epígrafe
Em julho, recebi um comentário aqui no blog que precisou desse tempo todo para ser respondido. Porque ele foi verdadeiramente importante para mim.
Eu havia publicado um texto da Martha Medeiros, que você pode ler aqui. E ele começa com um verso de Nei Duclós:
Nenhuma pessoa é lugar de repouso.
Acontece que quando colocamos uma epígrafe em um texto é sempre bom tentar buscar não somente palavras que caibam no nosso texto, mas também o sentido daquilo tudo. E, às vezes, textos curtos ficam descontextualizados, mesmo que, aparentemente, façam todo o sentido.
O próprio Nei comentou no Diário, e por isso fiquei tão feliz. E aqui, finalmente, podemos saber com exatidão tudo o que ele quis dizer com as palavras que abriam o texto de Martha:
"O repouso do verso nao é a paz de espírito, a sintonia tranquila entre duas pessoas. O repouso do verso é a acomodação, a preguiça, a mesmice. Esse repouso é traiçoeiro. Portanto, nao caiam tanto na tentação de contrariar o verso, porque eu jamais quis dizer o que é atribuído ao poema. A poesia é um alerta para a imobilidade das relações amorosas e não uma celebração da irresponsabilidade. Digo isso porque essa interpretação é repetida dez bilhões de vezes sem que de chance ao autor e ao poema, de que o sentido seria outro. Ninguém se toca. Como pode? E será que as pessoas vão mudar a percepção depois dessa argumentação? Ou vai ficar por isso mesmo, numa insistência de dar dó? Abs. Nei Duclós."
Sim. Eu vejo claramente a diferença. Eu a sinto agora mesmo.
Obrigada, Nei.
Eu havia publicado um texto da Martha Medeiros, que você pode ler aqui. E ele começa com um verso de Nei Duclós:
Nenhuma pessoa é lugar de repouso.
Acontece que quando colocamos uma epígrafe em um texto é sempre bom tentar buscar não somente palavras que caibam no nosso texto, mas também o sentido daquilo tudo. E, às vezes, textos curtos ficam descontextualizados, mesmo que, aparentemente, façam todo o sentido.
O próprio Nei comentou no Diário, e por isso fiquei tão feliz. E aqui, finalmente, podemos saber com exatidão tudo o que ele quis dizer com as palavras que abriam o texto de Martha:
"O repouso do verso nao é a paz de espírito, a sintonia tranquila entre duas pessoas. O repouso do verso é a acomodação, a preguiça, a mesmice. Esse repouso é traiçoeiro. Portanto, nao caiam tanto na tentação de contrariar o verso, porque eu jamais quis dizer o que é atribuído ao poema. A poesia é um alerta para a imobilidade das relações amorosas e não uma celebração da irresponsabilidade. Digo isso porque essa interpretação é repetida dez bilhões de vezes sem que de chance ao autor e ao poema, de que o sentido seria outro. Ninguém se toca. Como pode? E será que as pessoas vão mudar a percepção depois dessa argumentação? Ou vai ficar por isso mesmo, numa insistência de dar dó? Abs. Nei Duclós."
Sim. Eu vejo claramente a diferença. Eu a sinto agora mesmo.
Obrigada, Nei.
(In)Culta e Bela
Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam
no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns
anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido,
feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado
nominal.
Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele:
Um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por
leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os
dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa
oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.
O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno
índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo,
pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos.
Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador
recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente
no andar do substantivo. Ele
usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.
Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma
fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para
ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num
vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.
Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e
rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam
terminar num transitivo direto.
Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu
ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um
período simples passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não
perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro
que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às
vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.
Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias,
parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns
minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia
tomando conta.
Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um
perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu
grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do
edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos
nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições,
locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação
tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e
declarou o seu particípio na história.
Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por
todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto
adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era
um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa
maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos.
Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao
seu tritongo,
propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas:
enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do
substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo
indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um
ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo,
jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua
portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa
conclusiva.
Dizem que este texto é de uma aluna da Universidade Federal de Pernambuco.
Achei incrível.
no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns
anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido,
feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado
nominal.
Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele:
Um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por
leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os
dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa
oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.
O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno
índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo,
pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos.
Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador
recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente
no andar do substantivo. Ele
usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.
Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma
fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para
ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num
vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.
Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e
rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam
terminar num transitivo direto.
Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu
ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um
período simples passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não
perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro
que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às
vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.
Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias,
parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns
minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia
tomando conta.
Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um
perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu
grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do
edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos
nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições,
locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação
tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e
declarou o seu particípio na história.
Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por
todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto
adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era
um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa
maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos.
Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao
seu tritongo,
propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas:
enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do
substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo
indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um
ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo,
jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua
portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa
conclusiva.
Dizem que este texto é de uma aluna da Universidade Federal de Pernambuco.
Achei incrível.
Sem Ana, blues
Caio Fernando de Abreu usou meu nome para dar o título a um de seus mais belos - e tristes - textos, que você pode ler aqui.
Mas achei algumas preciosidades, sem nome ou sobrenome, escondidas em outro blog que visito quando quero ler coisas menos banais.
As Anas têm isso de blues mesmo.
Mas achei algumas preciosidades, sem nome ou sobrenome, escondidas em outro blog que visito quando quero ler coisas menos banais.
As Anas têm isso de blues mesmo.
Novo acordo ortográfico - a saga
Agora que tá valendo, algumas ferramentas podem ajudar a escrever certo desde já. O novo acordo ortográfico da língua prevê um prazo de 3 anos para a adaptação, mas todo formador de opinião ganha pontos escrevendo direito.
Uma boa saída é instalar o Vero, um corretor ortográfico para usar no navegador Firefox e evitar erros de português em e-mails. Clique aqui e veja como instalá-lo.
Mais completo, o FLiP:mac 2, em versões para o português de Portugal e do Brasil, tem suporte adequado ao novo acordo e inclui corretor ortográfico, nove dicionários temáticos, um dicionário de sinônimos e um sistema de hifenização de textos. Pode ser utilizado tanto no Microsoft Office 2004 quanto no 2008 e também integra-se ao sistema nativo do Mac OS X (já é um binário universal), incluindo softwares como o Editor de Textos (TextEdit), Mail, Pages, Keynote, Adium, OpenOffice.org e NeoOffice.
Um prático conversor disponibilizado no Interney tira dúvidas na hora.
E, claro, como saber é sempre bom, vale a pena imprimir e ler o Michaelis - Guia Prático da Nova Ortografia, assim como conhecer a lista com todas as palavras de mudaram.
Para os fãs do Word, que ainda não apresentou nenhum projeto com as mudanças no seu corretor, dá pra ajeitar na mão e facilitar a vida. Segue um "tutorial" básico:
1- Primeiro faça uma lista com as principais palavras que mudaram, as de uso mais corriqueiro. Eu usei a do Michaellis aí. Para não ter que ficar digitando, copie e cole do próprio PDF ou Portal da Língua Portuguesa.
2 - O corretor do Word vai sinalizar como erradas as novas formas de palavra. Na caixa de correção, em vez de alterar ou ignorar, clique em adicionar.
Pronto, agora seu Word não estranha as palavras novas.
3 - Vá em Ferramentas, Auto Correção e faça a substituição de palavra por palavra. Assim, toda vez que você escrever jibóia, por exemplo, a palavra é instantâneamente alterada pela nova forma, jiboia.
Pronto, seu corretor está minimamente adaptado para o novo acordo. Dá um trabalhão fazer isso, mas lembre-se que apenas 0,45% de palavras vão mudar, uma em cada 223. Por isso é legal alterar aquelas palavras de uso diário, as mais comuns para você. E, então, até 2013 você já pegou o jeito e vai estar com o olhar mais acostumado às novas formas que estão sendo implantadas.
Uma boa saída é instalar o Vero, um corretor ortográfico para usar no navegador Firefox e evitar erros de português em e-mails. Clique aqui e veja como instalá-lo.
Mais completo, o FLiP:mac 2, em versões para o português de Portugal e do Brasil, tem suporte adequado ao novo acordo e inclui corretor ortográfico, nove dicionários temáticos, um dicionário de sinônimos e um sistema de hifenização de textos. Pode ser utilizado tanto no Microsoft Office 2004 quanto no 2008 e também integra-se ao sistema nativo do Mac OS X (já é um binário universal), incluindo softwares como o Editor de Textos (TextEdit), Mail, Pages, Keynote, Adium, OpenOffice.org e NeoOffice.
Um prático conversor disponibilizado no Interney tira dúvidas na hora.
E, claro, como saber é sempre bom, vale a pena imprimir e ler o Michaelis - Guia Prático da Nova Ortografia, assim como conhecer a lista com todas as palavras de mudaram.
Para os fãs do Word, que ainda não apresentou nenhum projeto com as mudanças no seu corretor, dá pra ajeitar na mão e facilitar a vida. Segue um "tutorial" básico:
1- Primeiro faça uma lista com as principais palavras que mudaram, as de uso mais corriqueiro. Eu usei a do Michaellis aí. Para não ter que ficar digitando, copie e cole do próprio PDF ou Portal da Língua Portuguesa.
2 - O corretor do Word vai sinalizar como erradas as novas formas de palavra. Na caixa de correção, em vez de alterar ou ignorar, clique em adicionar.
Pronto, agora seu Word não estranha as palavras novas.3 - Vá em Ferramentas, Auto Correção e faça a substituição de palavra por palavra. Assim, toda vez que você escrever jibóia, por exemplo, a palavra é instantâneamente alterada pela nova forma, jiboia.
Pronto, seu corretor está minimamente adaptado para o novo acordo. Dá um trabalhão fazer isso, mas lembre-se que apenas 0,45% de palavras vão mudar, uma em cada 223. Por isso é legal alterar aquelas palavras de uso diário, as mais comuns para você. E, então, até 2013 você já pegou o jeito e vai estar com o olhar mais acostumado às novas formas que estão sendo implantadas.ÉçeOÉçe
Eu ainda não tinha visto, mas não ficou ótimo meu texto lá no PSV? E digo isso porque o site é bacana demais e os comentários idem. Valeu, pessoal do Portfólio Sem Vergonha!
Os dez erros gramaticais mais comuns podem estar em seu texto. Juntos.
Gabriel Perissé, em seu excelente texto “Oços do Ofíssio”, lembrou que Monteiro Lobato costumava dizer que a tarefa do revisor é das mais ingratas. Que o erro se esconde durante o processo de confecção do livro para, depois de tudo pronto, aparecer na primeira página aberta, como um saci danado, pulando, debochando do profissional.
Eu penso, e aprendi na prática de anos revisando peças publicitárias, que não podemos ser radicais e que nem todo redator domina com propriedade a gramática da Língua Portuguesa (se fosse assim, digo que teria começado como redatora de uma vez), quiçá outros idiomas, tão presentes na comunicação brasileira, assim como os neologismos, regionalismos e gírias das mais variadas.
Confesso que quando comecei era mais exigente. Mas com o tempo relaxei e aprendi que algumas vezes os erros são propositais e uma tentativa de aproximar-se do público-alvo. Mas que fique claro: essa transgressão da norma, uma “licença-publicitária”, só é aceita quando a peça exige. Todo o resto continua sendo sinônimo de que você fugiu daquela aula de Português e motivo de vergonha mesmo.
Sendo assim, listei aqui os dez erros gramaticais mais comuns que venho encontrando em propaganda, entre publicitários e em mesas de bar. Se por algum acaso do destino você pretende ser redator, recomendo ainda ter em mãos dois bons dicionários (Aurélio e Houaiss, que nem sempre concordam em tudo) e o Manual de Redação do Estadão, além de saber alguma coisa sobre o professor Pasquale e o Sacconi.
1- Pra mim fazer.
Eu poderia explicar que ‘mim’ não pode ser sujeito, mas prefiro dizer que falar assim é imitar os índios de algum filme bobo da Sessão da Tarde. É feia, mas grave a seguinte contração: “preu fazer”. Depois, aos poucos, vá soltando o ‘pra’ do ‘eu’. Pra eu fazer. Pra eu levar. Pra eu (qualquer verbo no infinitivo).
2- Venda à prazo.
Ahhhhh, a crase. Essa palavrinha que não significa um acento, mas sim um encontro. Explico: crase nada mais é que a junção de dois ‘as’. Um é a preposição. O outro é o artigo.
Vou à casa da minha mãe = Vou a (prep.) a (artigo) casa da minha mãe.
Veja no masculino: Vou ao banco = Vou a (prep.) o (artigo) banco.
Por isso não existe crase antes de palavra masculina.
3- Esse senhor, é meu pai!!!
Pontuação não é respiro. Vírgula serve, na maioria dos casos, para separar elementos de uma oração que tenham a mesma função sintática. Por isso, force-se um pouquinho para entender quem é o sujeito, quem é o predicado e não bote entre eles esse sinalzinho gráfico. Também não faça uso de exclamações em excesso, reticências a toda hora e essas coisinhas que a gente adora fazer em conversas de MSN.
4 – Erros de dijitassão e erros de ortogafia.
São muito comuns e pegam até mesmo os mais atentos revisores. Isso acontece porque costumamos a antecipar a leitura das palavras. Uma boa dica para revisores: faça a leitura de sílaba por sílaba e marque com um lápis ou mentalmente as já lidas. Para os redatores, antes de aplicar o texto no layout ou em arte-final, escreva-o no word e use o corretor ortográfico. Seja revisor de si mesmo e peça ajuda sempre.
5 – Wrong traduciones.
Muito cuidado com estrangeirismos e palavras em outros idiomas. Muitas vezes elas não são o que parecem e podem provocar uma saia-justa internacional. Trabalhei em uma agência que traduziu o slogan de uma famosa companhia aérea pro francês, “Vous êtes né pour voler”, sem saber que o verbo ‘voler’ (voar) também significa roubar, em francês. “Você nasceu para roubar” não seria mesmo uma coisa apropriada, e a sorte de todos foi que o revisor era curioso o suficiente para ligar para uma amiga que conhecia o idioma.
6 – Obrigado(a).
Não tem erro: meninos dizem obrigado. Meninas dizem obrigada. E os simpatizantes podem escolher!
7 – Super legal.
O maior problema entre revisores, redatores e diretores de arte. Isso acontece porque o redator cria o título assim, com as palavras separadas. O texto é aprovado e o diretor de arte transforma em imagem vetorizada. O cliente aprova e a arte-final chega para o revisor avisar pela enésima vez que ‘super’ é prefixo e que, portanto, a palavra correta, por mais estranha que possa parecer, é ‘superlegal’. Quanto vocês querem de aposta que ela vai sair errada e separada?
8 – Regência verbal (hãn?).
Nesse momento a gente precisa voltar um pouquinho àquela aula do colégio. Que raio vem a ser isso? Bem simples: é a relação de dependência que um verbo estabelece com seu complemento. Ou em outras palavras: que preposição usar (ou não) com cada verbo.
É um pouco chato, mas lembre-se dos casos mais famosos: :’ir/chegar a’ (e não ‘em’). ‘Assistir ao filme’ (‘assistir o filme’ significa dar assistência).
9 – Eles tem razão.
Verbo também tem plural. ‘Eles têm razão’ e ‘eles vêm aqui’.
10- Vícios de linguagem.
Umas das piores coisas, e que a gente dificilmente achará em gramáticas e dicionários, é saber controlar os próprios erros. Termos como ‘a nível de’ e gerundismos em geral (do tipo ‘vamos estar retornando sua ligação’) são consagrados como exemplos do que não fazer, como não escrever e nunca, em tempo algum, repetir. Como saber disso? Não tem jeito: lendo, lendo, lendo. Leia coisas ruins, leia coisas boas e, sobretudo, saiba encontrar a diferença.
É isso. Espero que não tenha atrapalhado muito. E não revisem esse texto.
Eu penso, e aprendi na prática de anos revisando peças publicitárias, que não podemos ser radicais e que nem todo redator domina com propriedade a gramática da Língua Portuguesa (se fosse assim, digo que teria começado como redatora de uma vez), quiçá outros idiomas, tão presentes na comunicação brasileira, assim como os neologismos, regionalismos e gírias das mais variadas.
Confesso que quando comecei era mais exigente. Mas com o tempo relaxei e aprendi que algumas vezes os erros são propositais e uma tentativa de aproximar-se do público-alvo. Mas que fique claro: essa transgressão da norma, uma “licença-publicitária”, só é aceita quando a peça exige. Todo o resto continua sendo sinônimo de que você fugiu daquela aula de Português e motivo de vergonha mesmo.
Sendo assim, listei aqui os dez erros gramaticais mais comuns que venho encontrando em propaganda, entre publicitários e em mesas de bar. Se por algum acaso do destino você pretende ser redator, recomendo ainda ter em mãos dois bons dicionários (Aurélio e Houaiss, que nem sempre concordam em tudo) e o Manual de Redação do Estadão, além de saber alguma coisa sobre o professor Pasquale e o Sacconi.
1- Pra mim fazer.
Eu poderia explicar que ‘mim’ não pode ser sujeito, mas prefiro dizer que falar assim é imitar os índios de algum filme bobo da Sessão da Tarde. É feia, mas grave a seguinte contração: “preu fazer”. Depois, aos poucos, vá soltando o ‘pra’ do ‘eu’. Pra eu fazer. Pra eu levar. Pra eu (qualquer verbo no infinitivo).
2- Venda à prazo.
Ahhhhh, a crase. Essa palavrinha que não significa um acento, mas sim um encontro. Explico: crase nada mais é que a junção de dois ‘as’. Um é a preposição. O outro é o artigo.
Vou à casa da minha mãe = Vou a (prep.) a (artigo) casa da minha mãe.
Veja no masculino: Vou ao banco = Vou a (prep.) o (artigo) banco.
Por isso não existe crase antes de palavra masculina.
3- Esse senhor, é meu pai!!!
Pontuação não é respiro. Vírgula serve, na maioria dos casos, para separar elementos de uma oração que tenham a mesma função sintática. Por isso, force-se um pouquinho para entender quem é o sujeito, quem é o predicado e não bote entre eles esse sinalzinho gráfico. Também não faça uso de exclamações em excesso, reticências a toda hora e essas coisinhas que a gente adora fazer em conversas de MSN.
4 – Erros de dijitassão e erros de ortogafia.
São muito comuns e pegam até mesmo os mais atentos revisores. Isso acontece porque costumamos a antecipar a leitura das palavras. Uma boa dica para revisores: faça a leitura de sílaba por sílaba e marque com um lápis ou mentalmente as já lidas. Para os redatores, antes de aplicar o texto no layout ou em arte-final, escreva-o no word e use o corretor ortográfico. Seja revisor de si mesmo e peça ajuda sempre.
5 – Wrong traduciones.
Muito cuidado com estrangeirismos e palavras em outros idiomas. Muitas vezes elas não são o que parecem e podem provocar uma saia-justa internacional. Trabalhei em uma agência que traduziu o slogan de uma famosa companhia aérea pro francês, “Vous êtes né pour voler”, sem saber que o verbo ‘voler’ (voar) também significa roubar, em francês. “Você nasceu para roubar” não seria mesmo uma coisa apropriada, e a sorte de todos foi que o revisor era curioso o suficiente para ligar para uma amiga que conhecia o idioma.
6 – Obrigado(a).
Não tem erro: meninos dizem obrigado. Meninas dizem obrigada. E os simpatizantes podem escolher!
7 – Super legal.
O maior problema entre revisores, redatores e diretores de arte. Isso acontece porque o redator cria o título assim, com as palavras separadas. O texto é aprovado e o diretor de arte transforma em imagem vetorizada. O cliente aprova e a arte-final chega para o revisor avisar pela enésima vez que ‘super’ é prefixo e que, portanto, a palavra correta, por mais estranha que possa parecer, é ‘superlegal’. Quanto vocês querem de aposta que ela vai sair errada e separada?
8 – Regência verbal (hãn?).
Nesse momento a gente precisa voltar um pouquinho àquela aula do colégio. Que raio vem a ser isso? Bem simples: é a relação de dependência que um verbo estabelece com seu complemento. Ou em outras palavras: que preposição usar (ou não) com cada verbo.
É um pouco chato, mas lembre-se dos casos mais famosos: :’ir/chegar a’ (e não ‘em’). ‘Assistir ao filme’ (‘assistir o filme’ significa dar assistência).
9 – Eles tem razão.
Verbo também tem plural. ‘Eles têm razão’ e ‘eles vêm aqui’.
10- Vícios de linguagem.
Umas das piores coisas, e que a gente dificilmente achará em gramáticas e dicionários, é saber controlar os próprios erros. Termos como ‘a nível de’ e gerundismos em geral (do tipo ‘vamos estar retornando sua ligação’) são consagrados como exemplos do que não fazer, como não escrever e nunca, em tempo algum, repetir. Como saber disso? Não tem jeito: lendo, lendo, lendo. Leia coisas ruins, leia coisas boas e, sobretudo, saiba encontrar a diferença.
É isso. Espero que não tenha atrapalhado muito. E não revisem esse texto.
Para mim, um espresso sem pressa
Ser revisora é, antes de mais nada, ser compreensiva com quem não é. Não costumo ser chata com a língua portuguesa, não reviso conversa de MSN e e-mails de amigos e me permito errar sempre que a situação permitir (inclusive aqui no blog), pois de chatos já bastam os gramáticos. Ninguém tem todas as respostas e eu acredito que revisor bom não é aquele que sabe tudo, mas o que sabe procurar nos lugares certos, além de saber adequar a linguagem ao contexto em que está inserida.
Por isso, quando ontem me chegou um cardápio de uma lojinha de um dos clientes para revisar, eu previ que teria problemas com o café. Adoro café, ainda mais se for feito na hora! Não é sempre que tomo, tenho que confessar, mas em certas épocas ele me é essencial para agüentar um dia cheio. Na verdade, o que gosto mesmo é de entrar em cafeterias e tomar calmamente alguma bebida quente enquanto folheio revistas e jornais sem nenhuma pressa.
Justamente por isso, em por ter tido a oportunidade de ter entrado em cafeterias famosas em alguns lugares diferentes, eu sempre observei o cuidado com que nelas os grãos são transformados naquela coisa fumegante e perfumada. E, como revisora que sou, sempre me atentei para a grafia da palavrinha que acompanha o café mais famoso do mundo: espresso. Sim. Com S. Porque vem do italiano: caffè espresso. Particípio passado do verbo ‘esprimere’ (espremer). Em outras palavras: café espremido, porque nesse tipo de bebida é retirado sob pressão.
Aí vem a parte ‘ser compreensiva’. Ou prever o futuro. Eu não imagino que todas as pessoas com quem trabalho tenham o hábito de ler e se atentar para esses detalhes lingüísticos. Também acho que muitas dessas pessoas simplesmente estão tão preocupadas com prazo e com seus clientes, que perdem o meio do caminho, ou seja, na pressa e na ânsia de chegar a um resultado, se esquecem da parte mais importante. E o mais triste é que algumas delas acabam vivendo assim. Atropelam quem estiver na frente, cegas de ansiedade, sem reparar naquele ou naquilo que estava todo o tempo do seu lado.
Não sou de fazer barulho. Acho realmente uma pena trabalhar e ver gente assim achando que faz o maior sucesso. Sou da turma dos calados e dos que ouvem mais do que falam. E leio o tempo todo, não só por esse ser o meu trabalho, que sorte. Leio porque sou leitora, absorvo palavras bonitas e feias, “histórias e estórias” o tempo todo, onde quer que eu vá. E foi num dia chuvoso como o dia de hoje que fui tomar um café e vi que na parede do lugar havia a seguinte frase: café espresso não é o café feito ou para ser tomado rapidamente. Bingo. É por isso que não é expresso. Achei isso a coisa mais linda do mundo, porque não há nada melhor do que saborear o momento, curtir as coisas sem a pressa massacrante do dia-a-dia.
Sabendo de todas essas coisas, ousei trocar no tal cardápio o café expresso pelo espresso, achando que assim salvaria o mundo. Digo ousei, porque sabia que faria alarde, mesmo depois de ter explicado à pessoa responsável essa historinha. Hoje, chegando à agência, leio um e-mail triste, com o título de URGEEEEEEENTE, de uma dessas pessoas que atropelam, e que não havia participado do processo, dizendo que está erradíssimo. Sabe, a menina é viajada, teve oportunidades na vida que nem eu mesma tive. Vira e mexe está no exterior, deve conhecer a Itália e ter entrado em muito mais Starbucks que eu. Vá se ralar (***MOMENTO GROSSERIA DETECTED***), não é mesmo? Primeiro porque nem ao menos ela se deu ao trabalho de procurar a razão pela qual os revisores trocaram a grafia de um produto (deve ser porque a gente gosta de ficar inventando moda, somos muito criativos e redatores frustrados). Segundo porque ela não aceitou a primeira resposta que dei, com a maior paciência do mundo, e foi procurar nos dicionários do UOL a palavra. Não encontrando (lógico, porque a palavra é italiana), me pediu mais referências do que eu estava falando (quis dizer a ela que minha referência era a vida e tudo o que eu tiro dela sem correr esbaforida fingindo que sou uma executiva). E finalmente porque, depois de convencida a moça, ainda não recebi um feedback (atendimento adora esses termos) e sequer um telefonema, coisa que provavelmente não vai acontecer, posto que rinocerontes não costumam parar pra esse tipo de frivolidades.
Penso que se ela não prestou atenção nunca na vida que o café era espresso, é porque o dela sempre foi expresso.
Por isso, quando ontem me chegou um cardápio de uma lojinha de um dos clientes para revisar, eu previ que teria problemas com o café. Adoro café, ainda mais se for feito na hora! Não é sempre que tomo, tenho que confessar, mas em certas épocas ele me é essencial para agüentar um dia cheio. Na verdade, o que gosto mesmo é de entrar em cafeterias e tomar calmamente alguma bebida quente enquanto folheio revistas e jornais sem nenhuma pressa.
Justamente por isso, em por ter tido a oportunidade de ter entrado em cafeterias famosas em alguns lugares diferentes, eu sempre observei o cuidado com que nelas os grãos são transformados naquela coisa fumegante e perfumada. E, como revisora que sou, sempre me atentei para a grafia da palavrinha que acompanha o café mais famoso do mundo: espresso. Sim. Com S. Porque vem do italiano: caffè espresso. Particípio passado do verbo ‘esprimere’ (espremer). Em outras palavras: café espremido, porque nesse tipo de bebida é retirado sob pressão.
Aí vem a parte ‘ser compreensiva’. Ou prever o futuro. Eu não imagino que todas as pessoas com quem trabalho tenham o hábito de ler e se atentar para esses detalhes lingüísticos. Também acho que muitas dessas pessoas simplesmente estão tão preocupadas com prazo e com seus clientes, que perdem o meio do caminho, ou seja, na pressa e na ânsia de chegar a um resultado, se esquecem da parte mais importante. E o mais triste é que algumas delas acabam vivendo assim. Atropelam quem estiver na frente, cegas de ansiedade, sem reparar naquele ou naquilo que estava todo o tempo do seu lado.
Não sou de fazer barulho. Acho realmente uma pena trabalhar e ver gente assim achando que faz o maior sucesso. Sou da turma dos calados e dos que ouvem mais do que falam. E leio o tempo todo, não só por esse ser o meu trabalho, que sorte. Leio porque sou leitora, absorvo palavras bonitas e feias, “histórias e estórias” o tempo todo, onde quer que eu vá. E foi num dia chuvoso como o dia de hoje que fui tomar um café e vi que na parede do lugar havia a seguinte frase: café espresso não é o café feito ou para ser tomado rapidamente. Bingo. É por isso que não é expresso. Achei isso a coisa mais linda do mundo, porque não há nada melhor do que saborear o momento, curtir as coisas sem a pressa massacrante do dia-a-dia.
Sabendo de todas essas coisas, ousei trocar no tal cardápio o café expresso pelo espresso, achando que assim salvaria o mundo. Digo ousei, porque sabia que faria alarde, mesmo depois de ter explicado à pessoa responsável essa historinha. Hoje, chegando à agência, leio um e-mail triste, com o título de URGEEEEEEENTE, de uma dessas pessoas que atropelam, e que não havia participado do processo, dizendo que está erradíssimo. Sabe, a menina é viajada, teve oportunidades na vida que nem eu mesma tive. Vira e mexe está no exterior, deve conhecer a Itália e ter entrado em muito mais Starbucks que eu. Vá se ralar (***MOMENTO GROSSERIA DETECTED***), não é mesmo? Primeiro porque nem ao menos ela se deu ao trabalho de procurar a razão pela qual os revisores trocaram a grafia de um produto (deve ser porque a gente gosta de ficar inventando moda, somos muito criativos e redatores frustrados). Segundo porque ela não aceitou a primeira resposta que dei, com a maior paciência do mundo, e foi procurar nos dicionários do UOL a palavra. Não encontrando (lógico, porque a palavra é italiana), me pediu mais referências do que eu estava falando (quis dizer a ela que minha referência era a vida e tudo o que eu tiro dela sem correr esbaforida fingindo que sou uma executiva). E finalmente porque, depois de convencida a moça, ainda não recebi um feedback (atendimento adora esses termos) e sequer um telefonema, coisa que provavelmente não vai acontecer, posto que rinocerontes não costumam parar pra esse tipo de frivolidades.
Penso que se ela não prestou atenção nunca na vida que o café era espresso, é porque o dela sempre foi expresso.
Lost in Translation
Aprendi na faculdade de Letras que algumas coisas não devem jamais ser traduzidas. Poesia é uma delas. Procurar palavras correspondentes entre um idioma é outro é perda de tempo, assassinato de sentidos, e por isso quando não há outra saída (porque não dá pra entender todos os idiomas e expressões do mundo) eu apelo para as versões de tradutores consagrados, de boas editoras e melhor ainda se for uma versão de um escritor brasileiro que não tentou fazer a coisa ao pé da letra, captando o sentido e não a palavra literal.
Dica do dia: fujam da Ediouro e das letras de músicas traduzidas na internet. Ok, se você não sabe o idioma, pode tentar o site Vagalume, mas ainda assim não acredite naquilo que está vendo. É, como eu disse, matar todo o trabalho ou a viagem daquele que escreveu a canção.
Tenho provas do que estou falando. Outro dia, embalada pela trilha do espetáculo Alegría, do Cirque du Soleil, fui pegar a tradução da canção-tema, que originalmente é em inglês, italiano e espanhol. Não sou nenhuma expert nos idiomas, mas tenho noção de um e de outro (bem mais de uns que de outros) e por isso fiquei chocada com a tradução que deram para a seguinte frase: "Alegría, come un assalto di gioia". É certo que as línguas latinas se assemelham muito, mas alguém aí já ouviu falar em falsos cognatos? Com certeza o cara que traduziu o trecho como "Alegria, como um assalto de jóias" não. Aliás, ele também não deve morar nesse planeta, a menos que seja ele o assaltante. Não é preciso pensar muito, apenas ler muito para entender que as palavras têm significados ilimitados. Portanto, traduzir assim é deixar a coisa menor, errada, e tolher dos leitores a possibilidade de fazer coisa melhor dentro de suas próprias cabeças.
Outra música que vem preenchendo meus dias, desde o começo das primeiras batidas, que me dão trecos e por vezes parecem ser as do meu próprio coração, é Love Will Come Through, do Travis. Fui tentada, como sempre, a ver as versões que o Google apresenta e claro que me decepcionei.
Por isso coloco aqui a canção e digo desde já que o que segue não é uma tradução, mas apenas um olhar sobre o que poderia ser. Faço isso porque ler que "burning a hole" seria "queimando um buraco" pareceu demais pra minha cabeça.
Enjoyem :)
Love Will Come Through
If I told you a secret
You won't tell a soul
Will you hold it and keep it alive?
Cause it's burning a hole
And I can't get to sleep
And I can't live alone in this lie
So look up
Take it away
Don't look da-da-da-down the mountain
If the world isn't turning
Your heart won't return
Anyone, anything, anyhow
So take me, don't leave me
Take me, don't leave me
Babe, love will come through, it's just waiting for you
Well I stand at the crossroads
Of highroads and lowroads
And I got a feeling it's right
If it's real what I'm feeling
There's no makebelieving
The sound of the wings of the flight of a dove
Take it away
Don't look da-da-da-down the mountain
If the world isn't turning
Your heart won't return anyone, anything, anyhow...
So take me, don't leave me
Take me, don't leave me
Babe, love will come through, it's just waiting for you
So look up
Take it away
Don't look da-da-da-down
If the world isn't turning
Your heart won't return anyone, anything, anyhow...
So take me, don't leave me
Take me, don't leave me
Babe, love will come through, it's just waiting for you
Love will come through
O amor vai chegar
Se eu te contar um segredo
Você não dirá a ninguém?
Você vai guardá-lo e mantê-lo vivo?
Porque está fazendo um buraco
E eu não consigo pegar no sono
E eu não consigo viver essa mentira sozinho
Então olhe pra cima
Deixe pra lá
Não olhe para baixo
Se o mundo não gira
Seu coração não bate
Por ninguém, nada, de nenhum jeito
Então fique comigo, não me deixe
O amor vai chegar
Só está te esperando
Fico parado nas encruzilhadas
De rodovias e estradas
E sinto que está tudo bem
Se o que estou sentindo é verdadeiro
Não há faz-de-conta
No som das asas do vôo de um pássaro
Deixe pra lá
Não olhe para baixo
Se o mundo não gira
Seu coração não bate
Por ninguém, nada, de nenhum jeito
Então fique comigo, não me deixe
O amor vai chegar
Só está te esperando
Dica do dia: fujam da Ediouro e das letras de músicas traduzidas na internet. Ok, se você não sabe o idioma, pode tentar o site Vagalume, mas ainda assim não acredite naquilo que está vendo. É, como eu disse, matar todo o trabalho ou a viagem daquele que escreveu a canção.
Tenho provas do que estou falando. Outro dia, embalada pela trilha do espetáculo Alegría, do Cirque du Soleil, fui pegar a tradução da canção-tema, que originalmente é em inglês, italiano e espanhol. Não sou nenhuma expert nos idiomas, mas tenho noção de um e de outro (bem mais de uns que de outros) e por isso fiquei chocada com a tradução que deram para a seguinte frase: "Alegría, come un assalto di gioia". É certo que as línguas latinas se assemelham muito, mas alguém aí já ouviu falar em falsos cognatos? Com certeza o cara que traduziu o trecho como "Alegria, como um assalto de jóias" não. Aliás, ele também não deve morar nesse planeta, a menos que seja ele o assaltante. Não é preciso pensar muito, apenas ler muito para entender que as palavras têm significados ilimitados. Portanto, traduzir assim é deixar a coisa menor, errada, e tolher dos leitores a possibilidade de fazer coisa melhor dentro de suas próprias cabeças.
Outra música que vem preenchendo meus dias, desde o começo das primeiras batidas, que me dão trecos e por vezes parecem ser as do meu próprio coração, é Love Will Come Through, do Travis. Fui tentada, como sempre, a ver as versões que o Google apresenta e claro que me decepcionei.
Por isso coloco aqui a canção e digo desde já que o que segue não é uma tradução, mas apenas um olhar sobre o que poderia ser. Faço isso porque ler que "burning a hole" seria "queimando um buraco" pareceu demais pra minha cabeça.
Enjoyem :)
Love Will Come Through
If I told you a secret
You won't tell a soul
Will you hold it and keep it alive?
Cause it's burning a hole
And I can't get to sleep
And I can't live alone in this lie
So look up
Take it away
Don't look da-da-da-down the mountain
If the world isn't turning
Your heart won't return
Anyone, anything, anyhow
So take me, don't leave me
Take me, don't leave me
Babe, love will come through, it's just waiting for you
Well I stand at the crossroads
Of highroads and lowroads
And I got a feeling it's right
If it's real what I'm feeling
There's no makebelieving
The sound of the wings of the flight of a dove
Take it away
Don't look da-da-da-down the mountain
If the world isn't turning
Your heart won't return anyone, anything, anyhow...
So take me, don't leave me
Take me, don't leave me
Babe, love will come through, it's just waiting for you
So look up
Take it away
Don't look da-da-da-down
If the world isn't turning
Your heart won't return anyone, anything, anyhow...
So take me, don't leave me
Take me, don't leave me
Babe, love will come through, it's just waiting for you
Love will come through
O amor vai chegar
Se eu te contar um segredo
Você não dirá a ninguém?
Você vai guardá-lo e mantê-lo vivo?
Porque está fazendo um buraco
E eu não consigo pegar no sono
E eu não consigo viver essa mentira sozinho
Então olhe pra cima
Deixe pra lá
Não olhe para baixo
Se o mundo não gira
Seu coração não bate
Por ninguém, nada, de nenhum jeito
Então fique comigo, não me deixe
O amor vai chegar
Só está te esperando
Fico parado nas encruzilhadas
De rodovias e estradas
E sinto que está tudo bem
Se o que estou sentindo é verdadeiro
Não há faz-de-conta
No som das asas do vôo de um pássaro
Deixe pra lá
Não olhe para baixo
Se o mundo não gira
Seu coração não bate
Por ninguém, nada, de nenhum jeito
Então fique comigo, não me deixe
O amor vai chegar
Só está te esperando
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