Epígrafe

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Em julho, recebi um comentário aqui no blog que precisou desse tempo todo para ser respondido. Porque ele foi verdadeiramente importante para mim.
Eu havia publicado um texto da Martha Medeiros, que você pode ler aqui. E ele começa com um verso de Nei Duclós:

Nenhuma pessoa é lugar de repouso.

Acontece que quando colocamos uma epígrafe em um texto é sempre bom tentar buscar não somente palavras que caibam no nosso texto, mas também o sentido daquilo tudo. E, às vezes, textos curtos ficam descontextualizados, mesmo que, aparentemente, façam todo o sentido.
O próprio Nei comentou no Diário, e por isso fiquei tão feliz. E aqui, finalmente, podemos saber com exatidão tudo o que ele quis dizer com as palavras que abriam o texto de Martha:

"O repouso do verso nao é a paz de espírito, a sintonia tranquila entre duas pessoas. O repouso do verso é a acomodação, a preguiça, a mesmice. Esse repouso é traiçoeiro. Portanto, nao caiam tanto na tentação de contrariar o verso, porque eu jamais quis dizer o que é atribuído ao poema. A poesia é um alerta para a imobilidade das relações amorosas e não uma celebração da irresponsabilidade. Digo isso porque essa interpretação é repetida dez bilhões de vezes sem que de chance ao autor e ao poema, de que o sentido seria outro. Ninguém se toca. Como pode? E será que as pessoas vão mudar a percepção depois dessa argumentação? Ou vai ficar por isso mesmo, numa insistência de dar dó? Abs. Nei Duclós."

Sim. Eu vejo claramente a diferença. Eu a sinto agora mesmo.
Obrigada, Nei.

3 comentários:

Nei disse...

Ufa, alguém prestou atenção no meu argumento. Esse texto da Martha Medeiros, que me cita, é reproduzido todos os dias, ao infinito. Fiquei notório como o cara que definiu a instabilidade amorosa como cânone, quando é exatamente o contrário. Fico realmente possesso com essa mania de, à moda de Martha, "cair na tentação de contrariar o verso de Duclós". Tem tanto verso para ser contrariado, por que logo o meu? Ou seja, foi atribuído um sentido (falso) ao verso e ahá! (expressão súbita de inteligência!) "não é bem assim!" "Hum...pode ser amor!" (aplausos para o insight!)Como se eu fosse o autor da façanha de pregar a galinhagem pura e simples. Haja. Ninguém desconfia que o autor pode não ser essa obviedade ambulante. Por isso seu post é importante. Obrigado e abs.

Patileide disse...

Dizem que para o bom entendedor meia palavra basta, mas na prática não é bem assim. Cada pessoa entende o que lê ou o que ouve de acordo com os sinais amazenados na memória ao longo da vida e é isso que dá graça (ou desespero) na vida da gente. A poesia possibilita tantas interpretações... o que pode ser bacana quando você quer ser "multi-interpretado" ou um inferno quando se faz ficar notório por algo que é o contrário do que se queria dizer. Conheço bem o sentimento. O mais engraçado disso tudo, é que quando li a citação do Nei, entendi exatamente o que ele quis dizer, mas quando li o texto da Martha, dei um tapa na testa e pensei: "Deus, como sou simplista e burra! É claro que ele não quis dizer isso". E hoje meu dia é mais feliz, já que descobri que ainda não fiquei totalmente cega e burra! hehehe Obrigada Ana, obrigada Nei!

SÓ TEM UMA disse...

Sartre e Beauvoir adorariam entrar nessa conversa. Vcs. são o máximo!