A letra A

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"O que os outros pensam da sua vida não é da sua conta". É com essa afirmação, tirada de uma bem-humorada lista de conselhos para a vida, que começo o post que vai tirar o pó do Diário.
Quando eu sumo daqui, geralmente isso significa que a minha vida está uma correria. E geralmente porque a correria me impede de pensar. Acontece isso com você também? De ter tanta, mas tanta coisa para fazer que deixa passar batido um bom livro, um bom filme. Ou horas de reflexão (vai, minutos que sejam) porque a vida urge lá fora e as pessoas estão sempre esperando por você.
Claro que em outros momentos vem a vontade de não pensar. De ler Caras descaradamente no salão de beleza. Dar mais importância para o site Ego do que para as eleições, porque sua cabecinha já fez muitos planos para salvar o mundo ou você ainda está se recuperando do maior baque da sua vida e só quer saber de não pensar.
Bom, mas passadas as opções 1 e 2 aí de cima, eu declaro ao mundo que voltei ao normal. Meu plexo solar está em equilíbrio e recomecei a respirar antes de sair chutando mais que Van Damme em dia de tocaia. E com isso veio a vontade de ler e assistir a bons filmes. E a pensar sobre eles.
Juliet Nua e Crua está no criado-mudo esperando acabar Doidas e Santas. E o ótimo El Secreto de tus Ojos, filme argentino vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010, me trouxe até aqui.
Atenção, os próximos parágrafos contêm spoilers (e essa afirmação contém ironia).
Benjamin, vivido pelo ótimo Ricardo Darín, é um oficial de justiça aposentado que decide escrever um romance sobre um caso que investigou em 1974. Trata-se do assassinato de uma jovem e da incansável busca pelo assassino, localizado por um olhar em uma antiga fotografia. Quando Benjamin decide colocar a história no papel, reencontra Irene, sua ex-chefe e companheira de trabalho. E ela lhe dá uma antiga máquina de escrever, que não grafa a letra A no papel.
É sobre isso que eu quero falar aqui e, se você ainda não viu o filme, saia da internet, procure-o imediatamente e todos ganharemos com isso. Benjamim e Irene têm uma história de amor bem mal resolvida. Daquelas de dar raiva e de a gente ficar se perguntando o tempo todo por que ninguém fez nada ali. Por que ele nunca disse que a amava? Por que ela se casou? Por que ele foi embora? Por que ela deixou? Todos os elementos de uma grande vida a dois estavam ali e eles nunca fizeram nada por ela.
Mas é aí que eu entro com o meu pensamento e alguma experiência no setor que a vida me trouxe. O amor que a gente busca é danado da vida. Quer garantias. E isso represa um monte de sentimentos que poderiam ser vividos e não são. Mas, ao mesmo tempo, um certo medo e cuidado, com uma coisa que sabe-se ser especial, torna tudo menos banal. Por medo a história não é vivida, mas é preservada.
Eu já vi isso acontecer. Acho que quando a gente é adolescente e faz qualquer negócio porque tá a fim de um carinha, na verdade está vivendo mais para o drama do que por uma pessoa real. Ao contrário, quando a gente ganha alguma maturidade, tem medo de perder alguém que se ama muito, e o preço disso é deixar passar, até que um dia a coragem chegue ou então que tudo vire filme, música, um post no blog.
Quando eu estava no colegial, dois amigos meus eram também muito amigos entre eles. Um menino e uma menina que gostavam de fazer tudo juntos. Um dia ele se declarou para ela. Acabou. Nem amigos eles conseguiram ser mais. Foi muito triste. Comigo já aconteceu o contrário, que atire a primeira pedra quem nunca teve medo dos seus próprios sentimentos.
Voltando a falar da velha máquina de escrever e contando aqui o final do filme, em uma madrugada Benjamin acorda e escreve em um papel em branco o que a gente julga ser seu sentimento mais forte em relação a Irene:

TEMO.

Mas lembrem-se: a velha Olivetti não grafava a letra A.